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UM GUARDIÃO DA HISTÓRIA NEGRA

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Por Vanderlon Fabiano Garcia da Costa

Crédito: Professora Carmelita Maria da Silva

Fonte: Facebook/Prefeitura Municipal de São Carlos-SP

 

 

 

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Faço esta homenagem ao meu pai Vanderlen Amaral da Costa, contando uma parte das inúmeras histórias que ele me contava, na qual falava sobre o seu orgulho de ser negro um ativismo que se entrelaçava com as outras grandes paixões dele: o bairro, o time, gosto por antiguidades, a música e a literatura.

Eu lembro dele contando como se deu o seu ativismo negro e como foi se misturando aos acontecimentos na sua infância e adolescência. Racismos culturais e comportamentais vivenciados por ele, o fizeram refletir ainda mais sobre sua história e cultura, fazendo com que meu pai, sozinho construísse uma das maiores coleções sobre o negro do Brasil e de outros países. Sua variedade tornou-se tão peculiar que sempre o procuravam em feiras de antiguidades a qual seus colegas colecionadores costumavam indicar quando a procura era algo relacionado a Negritude.

O Bairro

Em 04 de Setembro de 1937, nascia Vanderlen Amaral da Costa, gaúcho da cidade de Lavras do Sul, filho de Dorcelina Freitas da Costa e Higino Amaral da Costa. Era o sexto dos oitos filhos deste casal que entre os anos de 1943/44, decidem morar na capital gaúcha. Seu pai era um sapateiro de “Mão Cheia”, tanto que ao chegar em Porto Alegre, logo montou seu estabelecimento indo morar num bairro novo chamado Morro dos Alpes.

Vanderlen ainda guri, conhece sua vizinhança que naquela época dos anos 40 eram poucos moradores. Ele me falava que o Morro dos Alpes era diferente, porque tinha uma formação inicial de poucas famílias cujo seus próprios filhos foram povoando o local, um exemplo é um terreno da minha tia mais velha que seus filhos, netos e bisnetos moram no mesmo lugar até hoje.

Muitas aventuras a qual ele me contou, foram brigas, namoros e muito futebol que o fizeram amar aquele morro com tanta poesia até seus últimos dias. Vanderlen era um poeta e um escritor autodidata, seus primeiros poemas foram criados lá nos Alpes, que por volta dos anos 50 surgiram: “VIZINHOS’ e “FUNERAL MILÍCIANO”. Já nos anos de 1990 escreveu dois livros, mas não conseguiu editá-los, sendo o primeiro o livro de poemas que continha em cada página um desenho de alguns dos heróis de sua época, associando-se ao texto também de forma poética, cujo prefácio deste era o desenho do Brucutu, seu quadrinho favorito e como não podia ser diferente, o nome dado a este livro foi: “AH! O MEU HERÓI”.

O segundo livro é um romance que ele teve como inspiração a época de Jesus, uma história que se passa na África, mas que tem conexão com o povo hebreu em “O LEÃO E O SÁBIO”.

Vanderlen ganhou um prêmio literário em Porto Alegre, recebendo esse das mãos do então governador Olívio Dutra, participando da coletânea na 8º edição de “HISTÓRIAS DE TRABALHO” em 2001 com seu conto “O bonde gaiola”.

O time do coração e o ativismo negro

Ainda guri, Vando já percebia que em seu trajeto até a escola ouvia gritos e xingamentos atrás dos muros das casas por onde passava, com o uso da palavra “MACACO!!!”, e sabia que era pra ele, porque depois de passar por elas, geralmente avistava um menino ou até mesmo adultos rindo, resultando em inúmeras brigas com estes insultos.

Seu time do coração veio juntamente com o ativismo negro. Vando, (assim era chamado no bairro), apenas lembrava que começou a torcer para o Sport Club Internacional por causa de uma situação que aconteceu com ele.

Num certo dia, estava com seus irmãos mais velhos na frente de casa e com mais outros meninos negros do bairro, escuta um de um dos meninos perguntarem para eles, qual era o time que eles torciam, logo, um dos novos amigos responde com uma afirmação de que “Negrão tem que torcer pro Colorado” era fato que naquele tempo os negros tinham o Internacional como uma referência positiva, um time que os aceitavam e sua resposta foi automática “Então, Eu sou Colorado “disse Vanderlen pois assim, afirmava sua cor e seu time a qual este valorizava o “Negro”

O futebol da várzea era a maior diversão para os meninos que moravam no bairro Glória, os times surgiam aos montes, eu lembro apenas de poucos times como o Teimoso, Teimosinho, Cascata, Cascatinha e também o Glória. Durante anos defendeu a camiseta do Marabá, outro time de lá, nele meu pai jogou até se tornar um dos veteranos. O bairro tinha uma afinidade tão grande, que mesmo depois de seus amigos aposentarem suas chuteiras por motivo da idade avançada, tinham o interesse em manter o elo deles e através de um grande amigo de meu pai o Hércules, eles reuniram um grupo para criar algo que mantivesse aquela amizade antiga e foi então que resolveram criar uma associação com todos os remanescentes dos times daquela época com o nome “FESTIVAL DO ABRAÇO”, a qual todo ano no dia 1º de maio se reuniam para um churrasco com suas esposas, filhos, netos, amigos e convidados, este grupo permanece até os dias de hoje.

Em uma dessas festas, meu pai passou meses de casa em casa no bairro para pegar as fotos dos amigos e dos times a qual ele próprio cria uma exposição dessas fotos sinalizando com datas, local dos jogos e os nomes de cada um dos participantes do futebol de Várzea. O Sr. Vanderlen fez uma surpresa para os familiares, amigos e muitos dos filhos, assim como eu, vimos fotos de nossos pais quando eram mais jovens. Uma curiosidade, eu ( Vanderlon) por exemplo vi pela primeira vez nesta exposição, uma foto de meu pai com dezessete anos de idade.

A Coleção

Eu, Vanderlon, sendo o mais novo dos três irmãos homens, cresci vendo meu pai sair para trabalhar todos os domingos mexendo com antiguidades, a qual eu via em seu material sempre muita variedade. Meu pai era expositor de uma feira de antiguidades, hoje tradicional na cidade de Porto Alegre, ele era o fundador de ficha nº 2 dos que inauguraram o “Brique da Redenção”, localizada dentro do Parque Farroupilha, mais conhecido como Parque da Redenção. Descobri através de tantas histórias contadas por meu pai que o nome “Redenção” (liberdade) tinha sido dado a aquele local por ser um dos poucos lugares a qual os negros depois de libertos, podiam passear e fazerem piqueniques ali com suas famílias.

Certa vez, eu (Vanderlon) ainda pequeno, perguntei pra ele como pegou o gosto por “coisas velhas” e com risos me explicou que aquilo era importante para a história, as pessoas costumavam guardar como lembrança objetos que teriam resistido ao tempo, e assim ele me contou que quando era pequeno, estava brincando com seus amigos, quando viu chegar um cidadão na frente da sua casa aparentando estar perdido e pedindo informação de um morador do bairro que ao ver o nome e o endereço da casa, o seu pai respondeu: É o Sr. José, o “Antiquário”, seu pai pede que o filho leve o Sr. até o local. No caminho, eu (Vanderlen) um guri curioso, perguntei ao senhor o que era ser um antiquário e o homem me disse:” É uma pessoa que conhece muito sobre objetos antigos sabendo o valor que eles têm”.

Ao chegar na casa do “Antiquário” vejo um monte de objetos, conjunto de louça, castiçais quadros estátuas, enfim, coisas que nunca tinha visto. Vendo os dois senhores o conversando viu o visitante puxando uma níqueleira (porta moedas) do bolso e tirou algumas moedas de ouro, prata e também de cobre, onde ele ficou fascinado e daí por diante decidiu que seria um Antiquário.

Logo depois, meu pai Vanderlen sai da escola para começar a trabalhar, algo comum entre os meninos daquele tempo, mas sua alfabetização que era o 4º ano primário, naquela época foi suficiente pra manter o gosto pela leitura e assim pode ler de tudo.

Seu gosto pela leitura veio através do Gibi, uma revista infantil marginalizada pela sociedade porque achavam que os conteúdos eram de cultura rasa, mas se enganaram com meu pai, foi no gibi que ele manteve a prática de ler.

Primeiro Brucutu, Fantasma e Mandrake, essas foram as revistas infantis que deram início a sua coleção, depois conheceu outros meninos que colecionavam outras coisas por exemplo, um procurava latas de chá, outro cartões postais, selos, moedas, etc… e assim ele começou a expandir sua coleção, aprendendo sobre a filatelia começando com selos populares, a numismática com cédulas e moedas, esse conhecimento expandiu com materiais do Brasil, bem como de outros países.

Já com seus 17 anos de idade, Vanderlen, andando no círculo de jovens colecionadores, percebeu que alguns de seus amigos tinham em suas coleções muita variedade em objetos, mas que o motivo era de cunho histórico, pois eles buscavam resgatar suas origens, tudo que mostrasse a história de seus antepassados. Foi então que o jovem rapaz resolve também assim como seus amigos judeus, alemães e italianos, a procurar tudo que fosse relacionado ao povo negro.

Vanderlen muda o foco de sua coleção pois observou que a informações sobre os negros eram escassas e o que se tinha na época passavam desapercebidas pela sociedade. Vendo que teria uma luta árdua para garimpar, a sua busca e pesquisa tinha que ser minuciosa, incessante e nos pequenos detalhes aproveitando o conhecimento adquirido com selos, moedas e cédulas, mas ampliar seu olhar em jornais, livros, revistas, pinturas e uma gama de outros objetos.

Por anos meu pai, guardou tudo em seu baú uma variedade gigantesca da sua coleção particular sobre o “Negro”, ele sempre teve um sonho de mostrar tudo aquilo que adquiriu ao longo dos anos, não só em material, mas em conhecimento. A sua indignação era a invisibilidade negra, cuja a sua inquietude era como os negros sendo os primeiros imigrantes mesmo que forçados pela escravidão, ajudaram a erguer e enriquecer com suas mãos este país, mas que por conta de uma abolição não desejada, todo o protagonismo e conquistas dos negros caíram no esquecimento da sociedade e isso o motivou o Sr. Vanderlen para que a sociedade em geral conhecesse o seu acervo, mostrando o outro lado da história.

Anos se passaram, aproximadamente 5 décadas, sua coleção permaneceu no baú sem mais ninguém ver, até que em 2010, eu Vanderlon Fabiano Garcia da Costa conversando com minha companheira Carmelita Maria da Silva, sobre esta relíquia que meu pai guardava, surgiu a ideia de colocar em prática o sonho dele que se tornou nosso também. Após alguns meses convencendo-o de que já estava na hora de expor sua coleção e apresentar o que tinha em seu baú para que todos pudessem compartilhar todo seu conhecimento adquirido por mais de 50anos. Ele imediatamente aceitou e começou a montar os painéis, mas Carmelita lembrou, que não foi fácil pois foram meses e meses preparando tudo pelas mãos de meu pai e a cada quadro pronto, víamos o brilho nos olhos dele juntando raridades que muitos ativistas negros não conheciam, relato do grande ativista e saudoso professor Eduardo de Oliveira que foi o primeiro Vereador negro da cidade de São Paulo e criador do “Hino à Negritude”, a qual esteve presente na abertura da primeira exposição que aconteceu na cidade de Rio Claro-SP.

Em 2011, aos 74 anos conseguimos realizar o sonho de meu pai, sua exposição batizada de FRONTEIRAS DO BAÚ, estreia na cidade de Rio Claro – SP. Representando as religiões de matrizes africanas, tivemos a presença da Egbonmy Conceição Reis de Ogun ,presidenta do INTECAB/SP juntamente com o professor Eduardo de Oliveira na época presidente do CNAB/São Paulo. E assim começou a repercutir em diversas cidades entre elas: Jaú que resultou numa matéria da Revista RAÇA a qual estava presente o escritor Oswaldo Faustino (São Paulo), depois Sertãozinho, Pirassununga, Araraquara, em Matão, a exposição foi visitada por mais de mil alunos do ensino fundamental e médio de escolas municipais, estaduais e particulares, também como os alunos do EJA e do ensino superior.

Na cidade de São Carlos está exposição esteve por 3 vezes e estávamos programando o retorno para 2020, mas coincidiu com o início da pandemia.

Muita emoção durante a cada preparação a qual ele cantarolava pela casa músicas antigas e seu hobby era ler livros, não podia ver um que já passava a mão e levava para ler no quarto e em uma semana lia e já ia em busca de outro livro.

Durante 8 anos, estivemos andando juntos, meu pai, minha mulher e eu, nesta jornada fomos conhecendo pessoas e personalidades negras encantadoras. Tive que chamar `a atenção dele uma vez que a qual foi convidado para participar de uma roda de conversa em Matão e que na mesa só tinham “Feras” um deles era o Prof. Doutor Hélio Santos. Só que ao chamarem meu pai, fizeram questão de colocar o título de Professor Vanderlen , ele sem jeito me disse: “Fabiano!!! Eu não sou professor! Eu disse: “Fica quieto! E vai sentar lá na mesa” e assim foi… ele todo tímido e eu todo orgulhoso ao ver meu pai com seus olhos brilhando igual a de uma criança, vivo e radiante, num sonho que começou quando ainda era apenas um jovem negro que pensou como poderia contribuir para o fortalecimento histórico e ajudar sua etnia a se reconhecer como pertencente desta nação….

“Sonho realizado em vida “

O Sr. Vanderlen nos deixou dia 22 de agosto de 2021, devido as complicações da Covid-19, em setembro estaria completando 84 anos de idade, mas com certeza seu legado será levado por mim até quando Deus permitir.

Parabéns onde tu estiveres meu pai!

Gratidão! por todo amor, ensinamento e orgulho por ter vivido de perto com um grande “GRIÔ”.

Saudade, é algo que sentirei, mas tenho o entendimento que não estás sozinho e sim ao lado dos teus pais e irmãos … está matando a tua saudade.

Logo nos veremos novamente…meu professor, MEU HERÓI.

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